Maria Gregória Ventura, a dona Tita, foi uma importante liderança do Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira (MG). Seu ativismo comunitário a transformou em uma personalidade respeitada tanto por autoridades públicas quanto pela população local, dentro e fora de sua cidade de origem.
Ao completar um século de vida, em 2024, por iniciativa do seu neto estimação, Vinicius Aparecido de Souza, um decreto da prefeitura instituiu o Ano Municipal Dona Tita. A homenagem, que contou com o apoio de toda a cidade, estendeu-se ao principal festival literário da região —o FliItabira— e culminou na exibição do documentário “Tita, 100 Anos de Luta e Fé”, do cineasta Danilo Candombe, que valoriza o legado e história de vida da matriarca quilombola.
Nascida no quilombo, dona Tita era filha de Ernestina de Maia, que, embora muito jovem, ficou conhecida como alguém que influenciava os destinos da comunidade. Não conheceu o pai, cujo nome não consta em sua certidão de nascimento. Ao ficar órfã de mãe ainda criança, enfrentou a difícil relação com a nova companheira do padrasto e o trabalho pesado na roça, fato que a levou a ser acolhida por tios antes de migrar para Belo Horizonte, onde trabalhou por anos como doméstica até retornar às suas raízes.
Dona Tita se casou com Luiz, companheiro de muitos anos. Foi adepta da umbanda, religião na qual encontrou seu caminho espiritual. Tornou-se cambona, aquela que auxilia diretamente nos trabalhos do terreiro com dedicação e amor. Após o casamento, afastou-se da religião de matriz africana porque o marido tinha receio dessa prática. Mas nunca abandonou os ensinamentos recebidos, mantendo seus conhecimentos, o respeito aos ancestrais e o uso das plantas medicinais.
Depois de muito tempo afastada do quilombo, em 2004, ao ficar viúva, resolveu voltar para o Morro de Santo Antônio, onde a morte a acolheu, de forma serena e pacífica.
Como guardiã da memória de sua comunidade, compartilhava com sabedoria de uma vida inteira os conhecimentos da medicina popular, as rezas, as histórias de ancestralidade, as cantigas e seus costumes.
Há 18 dias ela viu partir sua amiga de vida e vizinha, dona Rosinha, ativista e escritora, de quem cuidou como uma filha. No livro “Memórias do Meu Quilombo”, lançado em 2025 pela Pallas Editora, com prefácio de Conceição Evaristo, Rosinha lhe dedica um capítulo.
Segundo o neto Vinicius, dona Tita deixa como herança a força das mulheres quilombolas, a resistência do povo negro, a sabedoria das plantas, a espiritualidade, o amor pela comunidade e “a certeza de que preservar a memória é manter viva a identidade de um povo”.
Na última segunda (22), dona Tita morreu aos 101 anos, em casa, cercada por amigos e parentes.
