Eram quase 2h quando ouvi o barulho da porta do banheiro batendo. Era uma madrugada dessas polares que têm feito em São Paulo neste ano. O frio, com já contei algumas vezes, atormenta o povo cadeirante. Os cambitos congelam, as pernas não esquentam e a cadeira de rodas compõe o conjunto frigorífico com suas partes metálicas.
“Papai, não estou me sentindo muito bem. Minha cabeça tá rodando, minha barriga tá estranha”, falou minha filha biscoita, a Elis, com cara de choro na beirada da minha cama.
Não vou mentir que joguei o edredom quentinho do lado e saltei porque minha velocidade natural de viver não permitiria, mas fui acudir minha cria o mais rápido que pude. Ela não costuma choramingar por causas que não exijam, no mínimo, um analgésico básico qualquer.
Dei lá engana menino e rapidamente ela reagiu. “Tô melhorando, papai. Obrigada. Vou tentar dormir”. Fiquei mais um pouco ali perto dela, segurando na mão de nossa senhora da bicicletinha para não congelar, e logo ela dormiu. Eu sabia que ali tinha algo novo naquela vidinha. Fiquei velando a tranquilidade dela e meus pensamentos por algumas horas antes de voltar a dormir.
Fazia alguns meses que minha menina vinha dando sinais de ruizeras repentinas, que chorava em situações cuja emoção nem era tão convidada assim, que relatava uns incômodos barrigais que não consegui relatar ao certo qual seria o fim.
Sempre achei admirável minha mãe saber que o caldo havia entornado para mim só de ouvir minha voz, ver a expressão de meu rosto ou sentir meu ânimo. Biscoita estava mudando de fase na vida e aquela madrugada friorenta era o prenúncio de algo aconteceria, eu tinha quase certeza.
Acordou zerada, piadista e falante. Quase não quis tomar café da manhã, mas me fez cascar uma laranja, atividade deliciosa, como se sabe. Mais tarde, foi-se embora para casa da mãe.
Como num capricho feminino, como num pacto entre mulheres. Foi lá que aconteceu. Na boca da noite, a notícia do meu instinto se materializava. “Elis acaba de entrar em uma nova fase da vida”, contou a mãe, com a filha rindo e já me antecipando ao fundo: “Você tava prevendo, né, papis?”
Ela ainda é tão pequena, mas a mente já navega em conhecimentos avançados e não se pode ter tudo. O cérebro manda, não tem jeito. O corpo é que se vire. A infância, que bela infância, começa a se despedir.
O que nunca será pequena é minha disposição para ela em quaisquer das estações do ano. Pais precisam estar ao lado de suas meninas sempre, pois, de alguma maneira, elas ainda estarão ali em dez, vinte anos. Não existe mais, ainda bem, isso é “coisa de mulher”. Tudo é coisa do nosso amor, da nossa relação, do meu papel de empoderá-la para a vida, da disposição dela em acreditar e confiar em mim para tudo.
Peguei a kombi e fui dar um abraço gostoso nela, que disfarçava, do jeito que podia, a situação. Compramos flores, contei vantagem do meu “instinto paterno” e fomos brincar. Este texto, foi liberado por ela, que acredita, também, que precisamos romper certos tabus, deixar de transformar algo do feminino em vergonha e tabu.
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