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Perdi meu pai e descobri que existe amor na distância – 03/07/2026 – Morte Sem Tabu

redacao by redacao
03/07/2026
in Segurança Pública
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Perdi meu pai e descobri que existe amor na distância – 03/07/2026 – Morte Sem Tabu
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Faz 12 anos que não vejo meu pai. Como ele teve coragem de me abandonar desse jeito? Ele, que tinha vários defeitos, mas nenhum deles era ser mau pai, foi embora e não voltou.

A morte traz essa sensação infantil de abandono. Acho que sempre somos crianças perante a partida de quem nos criou.

Chega dia 2 de julho outra vez. A mesma foto de novo, não há outras. E a mesma dor. Grande, perfurante. Com a diferença de mais algumas milhares de horas. E de um corpo, o meu, que precisou se alargar não sei em quantas vezes para comportar uma ausência crônica.

A parte mais triste da morte é essa sua característica definitiva. Depois do fechamento do caixão, o rosto nunca mais aparece em nenhuma nova foto; em nenhum domingo com cheiro de carne na brasa e cerveja gelada; em nenhuma Copa do Mundo; em nada. E isso assusta mais do que qualquer filme de terror.

Não há criação de novas memórias e você precisa mastigar as mesmas, já moídas pelo tempo, enquanto a voz do pai vai pouco a pouco se apagando. Ele não tinha celular, não gravou nenhum áudio pelo WhatsApp.

Perdi completamente a palavra pai. E perdi também a palavra filha. A mãe me chama de Jéssica Aparecida. Talvez venha daí minha vontade de contar histórias de muitos pais, de muitas filhas. De criar a fantasia de um pai na literatura só para lembrar quão quentinho era ouvir esse chamado: filha, filha.

Doze anos e eu ainda não aprendi que você não existe mais aqui, Tiãozão?

Percorro esta espiral como quem procura o pai na saída da escola. Não encontro. Qualquer camisa xadrez e uma calça jeans sobre um sapato preto me confundem.

Eu não o perdi só no dia 2 de julho de 2014. Perdi a cada dia 2 e em todos os outros, 3, 4, 5, todos. Perdi qualquer chance de te ver de bigode e cabelos brancos na varanda da sala. Perdi a chance de brigar com um malandro velho cheio de memórias do morro, das quebradas e dos trens.

Meu pai morreu em plena Copa de 2014. Nosso último jogo juntos foi dentro de um hospital. Brasil e México. Perdi todas as chances de ver o Brasil se tornar hexa ao lado do meu pai.

Perdi qualquer chance de ele me ver realizar os sonhos que sonhamos juntos. Perdi. Perdi muito. E embora isso tenha sido a pior coisa da minha vida até aqui, me ensinou a humildade de quem já perdeu.

Pedi à inteligência artificial que criasse um pai de bigode branco, mas ela não conseguiu ser inteligente o suficiente para trazer o pai de volta para o presente.

É no samba, no meio de um domingo, que o pai vem. Sem o bigode branco, sem a camisa xadrez, sem nenhum pano branco de fantasma. Vem na memória e só na memória.

Vem no balde cantando “Ogunhê, Ogunhê”. Na frente de casa, São Sebastião assiste ao show de dentro do mesmo oratório. A casa continua segurando suas vigas e suas paredes azuis respirando as tintas do passado. Nós continuamos o show. Continuamos segurando o samba. Continuamos vivendo, porque não tem outra saída senão viver. Viver com tudo. Arrombar mil portas para viver mais. Viver enquanto for possível, porque depois que a morte encosta te tirando o pai, todos os dias você se levanta da cama negociando que ela não te tire mais nada.

Sem sucesso, ela vai tirar o que quiser. Só não a memória, esse lugar onde eu e o pai existimos e nos encontramos. Há 12 anos descobri que existe amor na distância.

De onde estiver, “segura esse samba, não deixa cair, Ogunhê!”.


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