Brasília, palavra que carrega em seu nome um pouco de Brasil, é também o ponto de partida da história de Regina Helena Vieira da Silva. Muito antes de a capital federal existir, a antiga Brasília de Minas, cidade mineira desde o século 19, já havia dado ao país uma mulher que, à primeira vista, poderia parecer apenas mais uma entre as mais de 200 mil brasileiras chamadas Regina.
Ainda na infância, teve acesso à escola apenas até o ensino primário. Depois, precisou ajudar os pais no sustento da casa junto aos seis irmãos. Mais tarde, mudou-se para Montes Claros, onde trabalhou como empregada doméstica e conheceu o homem com quem construiria uma família.
Já casada e mãe de três filhos, percorreu cerca de mil quilômetros até o interior de São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em Paulínia, fincou raízes e viveu por mais de quatro décadas.
Passou a vida cuidando de famílias enquanto construía a própria. Dizia que, se sua história virasse um filme, faria todos chorarem. Não era exagero. Depois de passar fome na infância, prometeu a si mesma que nenhum dos seus enfrentaria a mesma privação. Para cumprir essa promessa, chegou a trabalhar em três casas ao mesmo tempo.
Pontual por convicção, mantinha todos os relógios da casa cinco minutos adiantados para nunca se atrasar. Dona de um humor afiado, era fã de programas de fofoca, das canções de Roberto Carlos e de cintos e saias coloridos, sempre cuidadosamente combinados.
Em casa, aparecia quase sempre de bobs nos cabelos e com as unhas pintadas em tons cintilantes. Era uma anfitriã generosa e tinha um talento raro para fazer cada pessoa sentir-se lembrada. Sabia de cor o prato preferido dos filhos, dos agregados, dos cunhados, das noras, dos netos e dos filhos do coração.
“Mesmo sem laço de sangue, ela foi a avó que eu não tive. Me deu o privilégio de sair da escola e encontrar comida de vó esperando por mim”, lembra Nicolas Vodopives, companheiro de uma das netas, a quem Regina chamava de “genro-neto”.
Não seguia uma religião específica, mas dizia acreditar no Bom Senhor Jesus. Curiosa por natureza, se encantava com as pequenas coisas e fazia perguntas que arrancavam sorrisos de quem estivesse por perto. Tinha ainda uma filosofia de vida simples, que repetia como quem lembrava aos outros da brevidade da existência: “Essa vida é muito besta. Aqui, somos apenas passageiros com passagem de ida.”
A escassez que marcou sua infância nunca diminuiu a importância que dava aos estudos. Incentivou filhos e netos a buscarem uma formação e defendia que as mulheres estudassem e trabalhassem para conquistar independência. “Ela sempre dizia que mulher precisava estudar e trabalhar para não depender de ninguém nem aceitar sofrimento”, lembra a filha do meio, Tânia Francisca.
Seu legado não está em títulos ou patrimônio, mas nas oportunidades que ajudou a construir. Graças ao esforço de Regina, mulheres da família seguiram carreiras na enfermagem, no jornalismo e na odontologia.
Regina Helena Vieira da Silva morreu em 8 de junho, aos 69 anos, em decorrência de complicações de uma pancreatite aguda grave. Deixa o marido, 3 filhos, 5 netos, 1 bisneto e muitos agregados.
