Uma criança diz sem rodeios: “Senhor prefeito, não queremos escorregadores, nem balanços, queremos a cidade”. Essa é uma das charges de Frato, nome artístico do ilustrador e psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, 86, que milita internacionalmente por mudanças urbanísticas que valorizem a infância.
A ideia do cartum é central em uma pesquisa sobre exemplos de transformações em municípios brasileiros que colocaram as crianças como prioridade: Jundiaí, no interior de São Paulo, e as capitais Recife (PE) e Boa Vista (RR).
O estudo também aborda o caso de Medellín, na Colômbia, que já foi considerada uma das cidades mais violentas do mundo e, após uma série de projetos voltados às zonas periféricas, se transformou em uma referência internacional de urbanismo social.
Conduzida como mestrado na FGV (Fundação Getulio Vargas), a pesquisa ganhou recentemente uma versão em livro, “Cidades Que Abraçam Infâncias: O Que É Possível Aprender Com Territórios Que Incluíram Crianças em Seus Planejamentos Urbanos” (ed. Dialética; 220 págs.; R$ 275 na editora; R$ 95 em compras físicas na Livraria da Vila, Megafauna, Eiffel e Cabeceira, todas na capital; R$ 71 o e-book).
A autora, Regina Cintra, 51, escolheu a charge da criança falando ao prefeito para abrir a obra, que reflete sobre os impactos das cidades na primeira infância e suas consequências para o desenvolvimento —a depender das vivências, podem ser positivas ou negativas, e deixam marcas para toda a vida.
Paulistana, ela teve uma infância de muita liberdade na São Paulo dos anos 1980. Andava de bicicleta, jogava taco e brincava de esconde-esconde na rua tranquila onde morava, na Vila Ipojuca, zona oeste.
“Havia um entendimento de que a rua era uma aliada, de que a criança precisava de movimento corporal, crescer brincando mais livremente para ir ganhando autonomia, a partir de combinados prévios e limites de segurança”, diz Regina, formada em jornalismo e com pós-graduação em infância, educação e políticas públicas.
Regina teve dois filhos e, quando eles eram pequenos, nos anos 2010, as ruas da região já não eram amigáveis. E se tornaram praticamente intransponíveis para sua mãe: nos anos que antecederam seu falecimento (em 2024), com problemas de mobilidade, ela mal saía de casa.
Por isso, o olhar dela se voltou para as consequências de um desenvolvimento urbano centrado nos carros e dos impactos que isso traz, especialmente para populações mais vulneráveis, de regiões periféricas, idosos, pessoas com deficiência, bebês e seus cuidadores, normalmente mulheres.
“O deslocamento das mulheres com bebês no colo, no carrinho, carregando mochilas, mamadeira, fralda, não é casa-trabalho-casa. É casa-creche-trabalho-creche-casa-posto de saúde… E tudo isso com barulho dos carros, poluição, dificuldades de mobilidade”, diz ela.
O livro traz projetos voltados à infância que conseguiram melhorar essa situação para toda a população. “Há experiências bem-sucedidas que são replicáveis sem grandes investimentos, como ampliar o tempo de travessia de pedestres, pintar mais faixas de pedestres ou criar áreas de convivência no entorno das escolas, com bancos e sombra.”
Deslocamentos são mais agradáveis quando as pessoas encontram locais para se sentar, lixeiras, bebedouros e banheiros públicos. E o caminhar pode se tornar lúdico com uma simples amarelinha pintada no chão, diz a pesquisa.
O estudo mostra pontos comuns nos processos que levaram Jundiaí, Recife e Boa Vista a se tornarem referências. Um deles é a escuta à população, inclusive crianças. Em Jundiaí foi formado o Comitê das Crianças, em que 12 meninos e 12 meninas têm reuniões quinzenais para tratar de problemas e propor soluções.
Saiba alguns dos projetos de cada município
- Jundiaí Entre os destaques estão a Fábrica das Infâncias Japy (espaço cultural e de lazer gratuito voltado ao brincar livre, com árvores, ocas feitas de tecidos, labirintos com filetes de bambu, tirolesa e bicicletas para empréstimo), o Bosque Hermindo Rossi (que fica entre duas escolas municipais e foi revitalizado com brinquedos integrados à natureza), o projeto Ruas do Brincar (a prefeitura cede cavaletes com desenhos do cartunista Frato, e os morados se responsabilizam por fechar temporariamente algumas vias para carros) e o parque Mundo da Criança (170 mil m2 de área, com quadras, paredes de escalada, pistas de skate e brinquedos).
- Recife Implementou em regiões periféricas unidades do Compaz (Centros Comunitários da Paz, com bibliotecas, salas com computadores e atividades para o contraturno das escolas; há unidades com piscina, quadras de tênis e estúdio de rádio, TV e fotografia, além de serviços como mediação de conflitos); 195 praças foram criadas, revitalizadas ou ampliadas. Lançou os programas Mãe Coruja (atendimento a gestantes e crianças de até 6 anos para reduzir a mortalidade infantil) e o Mais Vida nos Morros (casas e outros espaços de favelas foram pintados com cores fortes e alegres; praças e quadras foram construídas, e até o desnível dos morros foi aproveitado para virar escorregador e outros brinquedos).
- Boa Vista Criou os Caminhos da Primeira Infância (calçadas interativas, com pinturas lúdicas e brincadeiras como amarelinha interligam escolas e creches a unidades de saúde, praças e pontos de ônibus) e as Selvinhas Amazônicas (praças e parques com grandes esculturas de animais da Amazônia que funcionam como brinquedos). Praças e parques foram revitalizados com fontes e áreas molhadas para brincar. Mais de 40 quilômetros de ciclovia foram construídos, e pontos de ônibus se tornaram cabines com ar-condicionado e pinturas coloridas.
