Eu estava no banheiro de um bistrô, a poucos metros da Torre Eiffel. Um daqueles toaletes com duas cabines e um espaço comum para pia e espelho. Me encontrava num dos espaços fechados, fazendo aquelas coisas que fazemos a mando do aparelho digestivo.
De repente, ouvi o ranger da porta, uma pessoa entrando. Pelas vozes e pelos sotaques, concluí ser uma mulher e uma menina de uns sete ou oito anos, ambas estadunidenses. Discutiam. A mãe queria que ela vestisse um certo traje, mas a garota se recusou, argumentando que a roupa pinicava e o sapato doía.
A mãe seguiu pedindo. Primeiro com delicadeza: você vai ficar linda. Depois com tom de ameaça: se não vestir agora, não usa o celular. Ouvi um breve silêncio, depois o barulho do que julguei ser um zíper. Agora, os sapatos, a mãe ordenou. A menina disse que os sapatos não. Queria brincar e correr, e com aquela “porcaria” não dava.
Eu já havia concluído minhas abluções mas, antes de me levantar, estiquei o tronco e olhei por baixo da porta, a fim de ver, com meus olhos anônimos, que “porcaria” era aquela. Entrevi um par de sandálias douradas de saltinho, colocadas na frente de dois pés pequenos que se tensionavam como lábios se tensionariam na frente de uma colher de óleo de rícino.
Cada vez mais curiosa, abri a porta e flagrei a dupla. A mãe com cabelos volumosos, unhas de gel, maquiagem e vestido de festa. A menina, meio barrigudinha e maquiada, lembrava a “Pequena Miss Sunshine“, e já usava o tal vestido, que devia mesmo pinicar, pois era de paetês. Fui até a pia e lavei as mãos, observando as duas pelo espelho.
Depois deixei o banheiro, deduzindo que a dupla tinha vindo para algum casamento na Cidade Luz. Mas por que diabos não haviam se vestido no quarto de hotel? A perguntava ainda ecoava minha cabeça quando comecei a caminhar nas imediações da torre e avistei diversas pessoas produzidas da mesma maneira. Nenhuma esperando pelo “sim” de dois pombinhos, mas pelo “xis” de alguém atrás da câmera. Ou pelo clique de um olho metálico no topo de um pau de selfie.
Estava explicado. A Torre Eiffel, com seu imenso apelo turístico, potencializava a já conhecida mania de “se vestir pra postar”, provocando uma espécie de histeria estética de conteúdo. Cada um faz o que bem entende com seu guarda-roupa, mas era lamentável que, em busca do enquadramento perfeito, tanta gente desse as costas justamente para aquilo que veio admirar.
Exatamente como testemunhei no Museu Van Gogh, em Amsterdã, onde dezenas de pessoas se apinhavam em frente a tela “Girassóis” e, quando finalmente conseguiam uma brecha para ver direito a obra, davam-lhe as omoplatas, prontos para a foto.
Em que momento trocamos a fruição das experiências pela produção de conteúdo, e a que custo? Para a maioria das pessoas, postagens não rendem uma moeda furada. Quando muito, um punhado (quase sempre insatisfatório) de likes.
Folguei em saber que, ao menos para a menina que estava no banheiro, deve ter rendido um sorvete. Quando eu ainda caminhava nas imediações do bistrô, avistei mãe e filha em uma viela que dava vista privilegiada para a torre. A adulta falava para a câmera, jogando os cabelos pra lá e pra cá.
A menina, sentada no meio-fio, com a maquiagem borrada pelo choro, tomava um sorvete que se derretia sobre o paetê.
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